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sábado, 11 de dezembro de 2010

Prémio para um chinês sem ódio nem inimigos

por: Tato Zoppa
Uma ausência pode ser a mais poderosa das presenças, como ficou ontem demonstrado em Oslo, na cerimónia de entrega do Nobel da Paz ao opositor chinês Liu Xiaobo, o homem que declarou, ao ser condenado a 11 anos de prisão em Dezembro de 2009, "não ter inimigos nem sentir ódio por ninguém".

"Não considero inimigos os juízes que me julgaram, os procuradores que me acusaram, os polícias que me vigiaram, prenderam e interrogaram", declarou Liu no tribunal de Pequim em que foi julgado pelo envolvimento na elaboração da Carta 08, documento em que se reivindica a democratização do regime chinês.

A intervenção de Liu, em 2009, foi ontem lida na íntegra pela actriz Liv Ullman em Oslo, uma intervenção em que o opositor chinês evocou o perigo do ódio: "A obsessão com o inimigo envenena o espírito de uma nação, incita ao conflito, destrói a humanidade e a tolerância da sociedade."

O presidente do Comité Nobel norueguês, Thorbjorn Jagland, lamentou a ausência de Liu, "isolado numa prisão do Norte da China. Nem sua mulher nem familiares próximos puderam viajar para estar connosco. Estes factos mostram como o Prémio é apropriado" para o opositor chinês.

O professor e crítico literário - preso após os acontecimentos de Tiananmen em 1989, e várias vezes ao longo dos anos 90 - limitou-se "a exercer os seus direitos cívicos. Nada fez de errado", declarou Jagland, antes de colocar o diploma e a medalha do Nobel numa cadeira vazia ao lado das restantes ocupadas pelos membros do Comité norueguês.

Para Jagland, a "China deve saber aceitar as críticas", que são indispensáveis "sempre que existe um grande poder". A atitude de Pequim, "apesar do seu poderio, mostra alguma fraqueza ao considerar necessário prender um homem durante 11 anos apenas por este ter expressado as suas opiniões".

Além da cadeira vazia, um enorme retrato do opositor dominou a cerimónia de quase duas horas, considerada "teatro político" e um resquício "da mentalidade da Guerra Fria" pelo Governo chinês, lia-se num comunicado do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Pequim.

A diplomacia chinesa conseguiu que cerca de 20 países boicotassem a cerimónia. Em contrapartida, os representantes da União Europeia, entre os quais o embaixador português João Lima e Pimentel, dos EUA, do Japão, da Índia e da Coreia do Sul, estiveram presentes.

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