A ignorância é uma bênção
Você que lê blogs aqui no TATO ZOPPA ou em outros lugares muito provavelmente tem um smartphone. E se tem um smartphone, muito provavelmente checa e-mail, Twitter, Facebook e afins compulsivamente. Dá aquele giro diário nas notícias, nas fofocas, nas fotos dos amigos.
Não se acanhe, você não está sozinho. A prova maior de que o time dos viciados em informação não para de crescer é a igualmente crescente oferta de produtos para esse público hiperconectado.
Um deles é um hotel de Pittsburgh, nos Estados Unidos, que oferece um pacote chamado Zen and the Art of Detox (O Zen e a Arte da Desintoxicação) para quem quer viver a exótica experiência de passar uns dias desconectado do mundo.
Ao entrar no hotel você é obrigado a deixar todas as traquitanas tecnológicas do lado de fora. Mas não termina aí. O hotel também não tem TV no quarto, telefone ou qualquer tipo de ligação digital com o mundo externo. Mas há livros para serem devorados com calma, sem que o celular toque ou uma notícia na TV capture sua atenção. Orehab custa entre US$ 199 e US$ 399 por noite.
Mais em conta é o Freedom, aplicativo (Mac e PC) que por 10 dólares livra você dessa praga que é a internet. Digamos que você precise de um mínimo de concentração para fechar um relatório ou escrever um texto. Você abre o programa e define quanto tempo de concentração você quer (o máximo são 8 horas). Feito isso, ele vai travar totalmente seu acesso à internet, impedindo que janelas de comunicadores instantâneos pisquem na sua cara ou mesmo que você não resista a dar aquela passadinha de olhos nos feeds do Twitter ou do Facebook.
Para driblar o programa e conferir algo online durante o tempo definido, só há uma maneira: reiniciar o computador. A trabalheira de fechar todos os aplicativos e religar a máquina o impede de procrastinar e faz com que você se concentre no que tem a fazer.
Ainda no campo das palavras, dia desses descobri o OmmWriter, também para Mac e PC, que é um editor de texto bastante simples mas que trabalha em tela cheia numa interface absolutamente minimalista: são só as letras de seu texto e o fundo. Não tem qualquer recurso mais sofisticado de edição, mas vai nessa mesma linha de fugir da estética tudo-ao-mesmo-tempo-agora de hoje em dia.
Concentração é cada vez mais um bem escasso. E mais de uma vez já me vi elaborando teorias conspiratórias ao redor disso. Numa delas, vislumbrei nossa sociedade da hiperinformação como uma cortina de fumaça. Da mesma maneira que num truque de ilusionista, alguém estaria distraindo nossa atenção com zilhões de alertas, informações e mensagens enquanto colocava o coelho na cartola (ou desmatava a Amazônia, invadia o Afeganistão ou dissecava o ET de Roswell).
Atentos que estamos aos fragmentos superficiais de informação, será que saberemos ver a “grande figura”? De tanto olharmos para as pedrinhas brilhantes no chão, enquanto caminhamos, saberemos vislumbrar o horizonte? Quanto mais o que está depois dele.
Se já estamos pagando para não ter informação, algo errado acontece. Para começar, aquilo que abraçamos por interesse e opção, parece ter se tornado mandatório. Nós precisamos de celular, de canais de notícias na TV a cabo, de saber o que você está fazendo agora. Não precisávamos. E concordo que isso é tudo muito bacana. Mas será indispensável? Obrigatório?
No caminho que faço de casa para o trabalho, já não passo no jornaleiro e compro jornal, coisa que fazia uns 10, 15 anos atrás. Ao contrário, sou abordado por distribuidores dos jornais gratuitos, que se engalfinham para ver quem vai me dar primeiro seu tabloide. Se eu tivesse passarinhos suficientes para forrar suas gaiolas com os jornais que recebo, já teria sido preso pelo Ibama.
Curiosa essa inversão. Buscávamos e pagávamos pela informação. Depois passamos a recebê-las de forma automática e, agora, social. A overdose é tanta que já estamos pagando para “ficar por fora”. Nesse raciocínio, o paraíso fica fora da área de cobertura. E a ignorância é uma bênção.
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